Habitando o nó
Os bastidores da criação de “Entre o nó e a palavra”, de Rayana de Carvalho
por Rayana de Carvalho
Certo dia, acordei no meio da madrugada, inquieta por algo que não sabia distinguir. Essa coisa, que hoje denomino como sendo a própria palavra, tomou-me de um jeito que eu não sabia explicar.
As palavras vinham espontaneamente e se envolviam numa espécie de dança libidinal. O desejo retirou-me o sono — ou melhor, a vontade de decifrá-lo. Vencida, peguei o celular na cabeceira, abri o bloco de notas e, em meio à ânsia, vomitei um poema inteiro.
Eu não era poeta. Mas, naquela madrugada de 2023, tornei-me uma quando vi Escrava do desejo ganhar forma. Inclusive, este poema, que hoje compõe a coletânea de Entre o nó e a palavra, foi mantido intacto desde a sua primeira versão.
Confesso que jamais me imaginei escrevendo uma obra de poesia, mas a vida quis assim, e assim o fez. Aliás, a escrita já era uma velha amiga. Sempre fui uma acadêmica; entre textos dissertativos e artigos científicos, ali se concentrava todo o meu processo criativo.
Até que, em 2020, com a pandemia, tudo parou de fazer sentido. Na verdade, tudo parou, menos o tempo. Em meio ao isolamento social, escondi-me num túnel onde, ao final, havia uma luz chamada literatura. Então, vagueei pelo tempo refugiando-me nos livros. A literatura me salvou enquanto tudo desmoronava lá fora.
Em 2021, fundei, com Ellaila e Rayssa, o @mulheresquecorremcomlivros, um clube de leitura voltado à literatura escrita por mulheres. Ali me desaguei em outras vozes femininas até que a minha transbordasse. Forjei-me leitora para me tornar poeta, pois, à medida que me afogava nos livros, uma nova persona de escrita emergia: a literária.
Confesso que ainda guardo muito do academicismo, e isso aparece nos meus poemas, que quase sempre vêm de uma necessidade de indagar, explicar, de transformar o indizível em algo palpável, resolutivo.
Entretanto, a persona literária não me visita com tanta frequência quanto a acadêmica; ela é uma amiga que demora um pouco mais. O que é ótimo, porque essa ausência de inspiração gera aquele pico de saudade. E, quando ela aparece novamente, vem com força, como uma velha amiga que, mesmo longe, nunca te esquece.
E assim tem sido. Escrevo quando minha persona literária me visita. E, como uma boa companheira, essas visitas ocorrem, quase sempre, em momentos difíceis. Já diria Lima Barreto: “Se a tua dor te incomoda, faz dela um poema.” Então, a cada sofrimento, a cada dor, eu paria o meu primeiro livro, que foi nascendo aos poucos, num parto demorado.
Primeiro eu apenas sentia; depois, sentia e escrevia. Assim, fui compactando todos esses poemas numa pasta do Google Drive. A maior parte deles é bastante pessoal e tem relação com meu próprio processo de amadurecimento. Entre o nó e a palavra foi o jeito que encontrei de me transformar em poesia.
São os meus nós, todos eles sendo desatados por meio dos versos. A escrita é o que me salva em períodos de crise, sobretudo de ansiedade; foi ela que ajudou a resolver a minha equação existencial. Mas não sei se “resolver” seria o termo certo, porque nada se resolve (esse vício academicista não some assim de uma hora para outra).
Acho que o livro reflete um pouco essa dualidade entre o nó — isto é, aquilo que é sentido e, ao longo do tempo, racionalizado com certo rigor e isolamento — e a palavra, que é a vazão de tudo isso. O nó poderia ser entendido também como a minha própria busca pela palavra. Isso acaba criando uma identidade própria aos poemas, porque essa ambiguidade é uma característica muito presente neles.
Mas enquanto a persona acadêmica tem essa necessidade de se explicar e buscar conclusões para o sentido, o imaterial, a poesia é o oposto disso, porque ela age no mistério, é uma entidade intuitiva, espiritual. E talvez essas questões cheguem ao leitor porque, apesar de os poemas refletirem a minha individualidade, certas experiências são arquetípicas e refletem dilemas coletivos, como o medo da morte, o desejo e a contemplação daquilo que é efêmero, que são temas do livro.
Três anos se passaram até chegar à versão final da obra. Era uma certeza a vontade de publicar antes mesmo de o livro ter um nome. E, num período de recolhimento, Entre o nó e a palavra nasceu. Havia tantos nós engasgados que em apenas um mês organizei os capítulos e costurei o conceito da obra. Eu já tinha a maior parte dos escritos e fui estruturando-os por unidade temática; alguns poemas são mais conceituais porque foram elaborados para fechar o conceito da obra, como foi o caso dos versos finais do capítulo “A poesia como adaga”.
Não consigo explicar exatamente como todo o processo se deu, porque, quando a persona literária aparece, ela opera como uma entidade. Então despersonalizo e apenas a observo. E nesse arrebate, inscrevi a obra finalizada em um edital paraibano de incentivo à cultura e, simultaneamente, o enviei para a editora Urutau. O resultado veio como um abraço: recebi nota máxima no edital e o aceite de publicação pela editora, legitimando o livro antes mesmo de ele chegar às prateleiras.
Sei que não é uma obra perfeita, isso não cabe à arte. Mas é a minha estreia na literatura, e esse sentimento é indescritível. Deixo aqui o relato de quem habita neste nó, que não sufoca, mas se desata pela palavra. Essa mesma palavra que eu espero que inspire os leitores a desatarem os seus próprios.
RAYANA DE CARVALHO nasceu em Santa Rita, Paraíba, em 1993. É poeta, escritora e educadora popular do campo. Formou-se mestra em educação pela Universidade Federal da Paraíba, em 2018, e atua como professora da educação infantil. Entre o nó e a palavra é seu primeiro livro.
desejo combustível
O cheiro do desejo
espanca-me as narinas.
Quando te sinto
cheiro vapor
de um corpo fervente.
Ebulição de sangue
a pulsar nas veias.
Da boca que sangra
no calor da mordida
teu gosto salgado
fica na língua.
É o convite
à combustão
de dois corpos
que têm fome.





